Valdeck Almeida de Jesus
O poeta da verdade!
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Confiança no meu pai

Meu pai era analfabeto e por isso trabalhava na roça, derrubando madeira, carregando peso e servindo de burro de carga para fazendeiros. A lembrança que tenho dele era toda tarde chegando do trabalho, cansado, com uma roupa surrada e suja de terra. Eu e minha irmã Valquíria ficávamos sentados na porta esperando por ele, o Velho João, como chamávamos o nosso saudoso pai.

De longe avistávamos e corríamos para encontrá-lo antes mesmo de ele chegar em casa. Nos bolsos ele sempre trazia balas, compradas na venda de "Seu Júlio", que ficava no caminho para casa. Era uma festa. Eu e minha irmã ficávamos muito alegres com aquele presente de todos os dias.

Uma vez eu fiz alguma travessura da qual não me recordo e meu pai puxou o cinto para me dar uma surra. Eu estava na porta da frente, que tinha uma escada de dois degraus para descer. De tanto medo de apanhar eu me joguei escada abaixo, caí e ralei toda a barriga, que ficou sangrando. Meu pai disse "vem, que eu não vou te bater mais". Confiei no que ele disse e fui até ele, que me pegou e fez carinhos. Esta foi a lição que aprendi, a confiar no meu pai. Quando ele dizia uma coisa, ele cumpria.

Nossa vida foi muito dura, difícil, de falta de comida e de tudo. Mas aprendemos que a vitória não vem fácil, sem uma luta, sem um planejamento. Meu pai era um lutador e esta garra a gente aprendeu logo cedo. Em tempo de chuva, nossa casa alugada se enchia de água e éramos obrigados a correr para nos abrigar na casa de vizinhos.

A solidariedade entre pessoas que necessitam até do básico para sobreviver sempre é mais forte. Mas aprendemos que não é somente nos momentos difíceis que devemos ser companheiros e solidários. No dia a dia, até nas horas alegres, devemos estar juntos, somando, compartilhando, dividindo, oportunizando a cada um irmão ou amigo a vencer, ser vitorioso.

Viver em comunidade exige dedicação e planejamento, sempre. Assim, cada um somando o pouco que tem, vai construindo, tecendo uma sociedade mais justa e mais igualitária, menos preconceituosa e menos segregadora. A união eu aprendi dentro de casa, quando a pouca comida era dividida por todos, para que nenhum ficasse com fome... Minha mãe sempre soube dividir o pouco que meu pai conseguia trazer para dentro de casa. E, assim, a gente vivia, viveu e sobreviveu a todas as intempéries, mesmo as mais difíceis.

A união nos manteve um grupo coeso, marchando junto, com o mesmo objetivo: sobreviver junto. Hoje, cada um a seu modo, tenta levar adiante as lições daqueles tempos difíceis e quase insuportáveis. Atualmente eu patrocino pessoas que passam por situações semelhantes as que passei, e incentivo seres humanos a se tornarem melhores, a se estabelecerem no mundo, graças ao incentivo à leitura e à escrita.

Muitas vezes, apoio de outras formas, que não vem ao caso relatar aqui. Mas a vida é isso, uma corrente em que cada um tem uma importância e um valor. Se um fraqueja, o dever dos demais é se unir àquele menos resistente para que ele prossiga e faça a corrente não se quebrar... Afinal, se um se perde o restante pode sucumbir junto. Então, não resta alternativa senão ser um corpo só, junto com todos os outros corpos... e seguir, sempre, num único objetivo, qual seja o do bem comum.

Em tempos de egoísmo e falta de solidariedade, parece utópico se pensar em coletividade. Mas não posso deixar o sonho dos meus pais se diluírem na falta de crença das pessoas, nem posso desanimar diante de mentiras e falsidades. Meu objetivo na vida é muito maior do que curtir momentos e ter prazer fugaz. Penso para a eternidade e planejo minha vida pensando num horizonte cada vez mais real. O horizonte da vida eterna, do amor e da paz.

MEU PAI
Meu pai, João Alexandre de Jesus, era um trabalhador braçal. Pouco eu sei dele, somente que nasceu em Santo Antônio de Jesus, cidade localizada no recôncavo baiano. Dali ele partiu para Jequié, conhecida como Cidade Sol, onde conheceu minha mãe Paula Almeida de Jesus e se casou. Antes, porém, ele já tinha esposado outra mulher, com a qual teve seis filhos.

Um homem firme, rude, mas ao mesmo tempo humano e carinhoso. Muitas saudades do meu velho... O que me consola é que as lições que ele me passou jamais serão esquecidas. Ele foi um exemplo de honestidade, perseverança e persistência. Apesar de não ter condições de estudar, incentivou quando eu fui para a escola. O sonho dele e de minha mãe, Paula Almeida de Jesus, também falecida, era que os filhos trilhassem um caminho menos árduo na vida. E, graças ao esforço deles, todos os oito filhos conseguiram se dar bem e conquistar um lugar ao sol.

Hoje eu moro em Salvador, minha irmã Ivonete mora em Santo Amaro da Purificação, Valquíria e Vivaldo moram em Jequié, Valdecy mora em Vitória da Conquista e Valdir, Valmir e Vitório moram em São Paulo. Todos bem de vida, graças aos estudos. É uma vitória que poucas famílias alcançam. Mas, graças a Deus, nossa família se orgulha de sua origem e não esquece o passado, exemplo para nosso futuro e de nossos filhos. Assim, trilhando o caminho indicado pelos meus pais, sigo em frente e incentivo a tantos quantos eu encontro pela vida a estudar e a lutar por seus sonhos.

Foto: Divulgação - Valmir, João, Vivaldo, Eliane, Paula com Ivonete no colo. Na frente: Valdeck, Vitório, Valdecy, Valdir e Valquíria.
Valdeck Almeida de Jesus
Enviado por Valdeck Almeida de Jesus em 24/11/2011
Alterado em 24/11/2011
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