Alguém já disse que tudo já foi dito. Mas será mesmo? A Terra continua redonda, girando em seus ciclos teimosos, e talvez por isso as histórias voltem, reencenem, ressoem. As novidades acontecem — lançamentos, modas, discursos — mas os sentimentos humanos parecem manter sua ossatura antiga: angústias, amores, felicidades, conquistas, opressões. Mudam os nomes, variam as perspectivas, transformam-se as embalagens; a essência, porém, insiste em permanecer.
Eu, que escrevo desde os doze anos e aprendi a olhar o mundo pelas frestas da palavra, encontro nisso um terreno familiar. Leio poesias, prosas poéticas, textos técnicos, acadêmicos; leio quase tudo que me atravessa. A minha diversão é escrever, mas a diversão também é ler. E poucas vezes encontro algo que se imponha como novidade — não porque o novo não exista, mas porque ele depende do dia, da hora, do estado de espírito da pessoa leitora. O novo é também um fenômeno íntimo, circunstancial.
Foi assim que cheguei ao lançamento de Terra sob as unhas, de Júlia Elisa, durante o Festival Literário de São Félix. Eu já conhecia a poeta dos recitais no sarau do Caquende, em Cachoeira, e sabia da força de sua voz. O livro, prefaciado por Conceição Evaristo — mineira, como Júlia, e dispensando apresentações — me convidou a quebrar um hábito antigo: não costumo ler prefácios antes da obra. Evito trailers, resenhas, sinopses que interfiram no encontro direto com o texto. Mas abrir exceção para Conceição Evaristo é quase uma obrigação afetiva e literária.
A apresentação de Evaristo é, como esperado, estupenda. Mas Júlia Elisa não fica atrás. Constrói uma obra dividida em três partes — arenosa, argilosa e terra preta — que, no sentido denotativo, sugerem uma hierarquia de densidades, fertilidades, camadas de solo e de alma. É o tipo de classificação que só se compreende lendo, degustando, deixando a palavra sujar delicadamente as mãos.
Júlia trata de temas novos e corriqueiros, mas o faz sempre surpreendendo, sempre deslocando. É uma construtora de palavras, uma artesã que ergue sentidos com precisão mineira. No lançamento, falei da cadência com que seus poemas dizem com ritmo próprio. Disseram que era o ritmo do sotaque mineiro. Pode ser. Mas há outras cadências ali: melodias internas, quase mantras, vibrações que não se acomodam apenas na musicalidade da fala, mas na vida mesma — nas emoções, nas lutas, nos amores e nas inevitáveis decepções.
Ler “terra sob as unhas” é aceitar o convite para tocar a palavra com o tato. Júlia Elisa é arteira, artista e artesã, e seu livro opera aquela rara experiência do momento em que a palavra acende uma lâmpada dentro da pessoa leitora. Não é exagero: cada poema parece acender uma pequena chama, nunca ruidosa, mas sempre necessária.
E eu, poeta que escreve desde menino e carrega compromisso com temas humanos e sociais, reconheço ali uma voz que afirma e reafirma que, mesmo quando tudo parece já ter sido dito, há sempre uma fresta por onde outra forma de dizer nasce.
Conheça. Leia. Deguste.
Terra sob as unhas, de Júlia Elisa, é um livro que suja suavemente — e fertiliza profundamente — quem ousa abri-lo.